Veneza e a moda das cortesãs

Quando a gente fala de moda, não temos como referência Veneza, mas foi exatamente aqui que chegaram os primeiros carregamentos do Oriente com tecidos preciosos como seda, brocado, veludo. Mas não só: o ouro utilizado para realizar os acessórios, as pedras preciosas, pérolas.. pensem também nas contas, no vidro de Murano. A cidade era um terreno fértil para o desenvolvimento de uma moda rica e criativa. 

A feminilidade sempre foi marcante na sociedade veneziana. Além da indumentária e dos acessórios, as mulheres contavam com um verdadeiro arsenal cosmético. Veneza também foi o berço da perfumaria. Hoje a cidade conta com um percurso dedicado à história do perfume no interessantíssimo Museu da Moda e do Perfume no Palazzo Mocenigo.

 

Alguns documentos mostram que Marco Polo trouxe da sua famosa viagem no século 14, partes do corpo de um cervo almiscarado. O animal possuía uma glândula que liberava um perfume penetrante, o almíscar, que rapidamente ficou famoso na cidade.

 

As cortesãs

Veneza também era a cidade da tolerância, das festas e da vida mundana. Neste espectro a moda se manifesta em uma das figuras mais importantes na cidade durante toda a história da República, a cortesã.

 

Tintoretto em 1570 realiza este famoso quadro com uma mulher com o seio à mostra. Alguns dizem que se tratava de Veronica Franco, a cortesã mais famosa de Veneza
Era principalmente na área de Rialto que elas atuavam devido à grande concentração de homens de negócios, viajantes e mercadores. No século XIV, o Senado veneziano editou um decreto que regulamentava a atividade, delimitando o espaço de atuação, regras e indicando a utilização de um lenço amarelo identificativo.
No século 16, estima-se que em Veneza existiam cerca de 11 mil cortesãs, que se dividiam em duas categorias. As prostutitas de lume eram mulheres pobres sem instrução.  As chamadas honestas eram mulheres cultas, que sabiam ler, escreviam poesias, entendiam de arte e eram as companheiras preferidas dos homens de poder. 

 

Elas se vestiam com longas saias de seda, corpetes, brincos, colares e penteados impecáveis.  Os vestidos tinham decotes vertiginosos como podemos notar nas obras dos pintores que retrataram as mulheres da época como Veronese, Tintoretto e Tiziano. 
A obra La Bella Nani, de Paolo Veronese, 1560, testemunha a indumentária da época 
Mas um dos elementos mais marcantes da moda da época eram as chamadas pianelle, sapatos de salto altíssimos, que chegavam a ter 50 cm. A tradição dos calçados na cidade é muito antiga, a primeira corporação de sapateiros foi fundada em 1268. Os tais saltos altos eram imprescindíveis para que as mulheres parecessem mais altas, mas também tinham uma função prática: mantê-las protegidas da lama e da maré alta.
O tamanho do salto nunca era perceptível, pois as saias longas cobriam os pés das mulheres, que tinham que se apoiar em um serviçal para poderem caminhar. A igreja, que não aprovava a moda e a ostentação da imagem, fechava os olhos para as pianelle, pois utilizar saltos altíssimos impedia que as mulheres dançassem ou se divertissem.

O carnaval e a moda

A Veneza da arte, do comércio e da vida mundana se mostrava mais ativa durante as festas de carnaval, marcadas por um clima ainda maior de liberdade e tolerância. Os salões, cafés, palácios viravam cenários de um excêntrico desfile. 
 
Os homens usavam a “baùta”, uma roupa com uma espécie de capa que cobria todo o corpo. O rosto era escondido por uma máscara branca triangular, com uma abertura que não os impedia de comer e beber, mas era suficientemente fechada para alterar até mesmo a voz de quem a usava.
As mulheres usavam a “moretta” uma máscara preta de veludo oval. Porém, para elas reinava o silêncio, já que a moretta era encaixada no rosto por meio de um botão que devia ficar dentro da boca da mulher, o que as impedia de se expressarem.

 

A relação de Veneza com a moda foi retratada ao longo dos séculos por grandes artistas, que ao eternizar o cotidiano da cidade, deixaram o testemunho da riqueza, dos detalhes e de uma estética diversa do resto da Itália.

Mariano Fortuny

Veneza não foi berço de muitos criadores da moda, mas entre as personalidades ligadas a este mundo, vale a pena citar Mariano Fortuny. Fortuny era espanhol, mas viveu em Paris antes de se mudar para Veneza, em 1889.

Na capital francesa aprofundou seu conhecimento e contato com as artes visivas e decorativas e, em Veneza, investiu na criação e desenvolvimento de tecidos. Suas estampas e vestidos se inspiravam no movimento Art Nouveau e fizeram grande sucesso. As peças eram utilizadas por bailarinas e artistas no palco e na vida privada.

O plissado era a marca registrada (literalmente) de Mariano Fortuny

Mariano fez riviver o classicismo grego romano e foi a inspiração de grandes estilistas contemporâneos como Issey Miyake, que utilizaram a técnica do plissado em suas coleções. Ainda hoje é ativa em Veneza, na ilha da Giudecca, a fábrica de tecidos fundada por Fortuny. Seu palácio, no bairro de São Marcos, hoje é um museu.

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