O último battiloro de Veneza

Um sopro. Na linha tênue mas intensa entre a vida e a morte, é neste gesto repleto de significados que se inicia ou se termina um ciclo. Os mitos sobre a criação do mundo se entrelaçam dentro de correntes e filosofias diferentes que assumem o sopro como o início. O livro da Gênesis documenta que Deus criou o homem do barro da terra e com um sopro lhe deu a vida. Na filosofia oriental, a formação do universo apoia-se nos cinco sopros de energia vital que permeia o cosmo, o prana. Na Umbanda, Olorum criou o universo e seus seres imateriais com seu hálito sagrado.

Em um sopro, eu encontrei a morte e a vida em uma pequena bodega em Veneza. Há 89 anos, a família Berta dá continuidade a um trabalho que nasceu nos remotos tempos em que a República Vêneta construía seu império por meio das trocas comerciais com o Oriente. O ouro que chegava a Veneza era transformado pelos chamados “battiloro” em finíssimas folhas, utilizadas na decoração de objetos e obras de arte que glorificavam a riqueza da igreja e a nobreza do tempo dos doges. A profissão de “battiloro” teve seu auge em Veneza nos anos 1700, quando este tipo de artesão na cidade chegava ao incrível número de 300 homens.

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Nos tempos áureos da República, casas, igrejas, palácios, estátuas eram adornados com as folhas de ouro provenientes dos diversos laboratórios artesanais da cidade. Os vidros da vizinha Murano eram enriquecidos com o toque dourado e reluzente. Construções antigas, santos, oratórios, urnas eram restaurados com a matéria prima reduzida às finas lâminas do “battiloro”. Para se ter uma ideia do prestígio deste ofício, aos homens que o desenvolviam era permitido fazer a corte e casar-se com as moças de família nobre.

A profissão de “battiloro” foi quase completamente extinta no final dos anos 1800, depois da crise do século que sucedeu-se à queda da República de Veneza. “No final dos anos 1800, não existiam mais artesãos “battiloro” em toda Veneza, os patrícios não queriam e não podiam mais restaurar estátuas, igrejas e palácios, de onde provinha a maior parte do trabalho do “battiloro”, explica Marino Menegazzo, o último “battiloro” de Veneza.

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Posicionado em frente a um balcão de mármore, Marino se recorda do caminho que percorreu para tornar-se o último “battiloro” de Veneza: “Fui vendedor de livros, fiz alguns concursos públicos e passei em todos, mas entendi que não era um trabalho para mim, até que meu sogro, à época submerso de encomendas, me pediu para dar uma ajuda por aqui; os pedidos foram aumentando e eu fiquei. Me apaixonei tanto por este ofício que acabei por superar o meu mestre, e ele sabia disso”, conta orgulhoso.

Marino herdou do sogro a difícil missão de equilibrar força e delicadeza. A mesma delicadeza que suas filhas, as gêmeas Eleonora e Sara, junto a um pequeno grupo de mulheres, desenvolvem em um laboratório com iluminação suave e um silêncio desconcertante. As irmãs levam adiante uma etapa fundamental do trabalho que seu avô Mario Berta ensinou ao pai delas.

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A transformação da matéria prima em folhas finíssimas tem início com o processo de fusão, que purifica o ouro, sucessivamente solidificado em forma de barra. Em um segundo momento, o ouro é dividido em lâminas para que finalmente entre em ação o “battiloro”.

Para se chegar a um bloquinho com 25 folhas de ouro cada, é necessário que Marino bata por 1 hora e meia sem cessar com martelos que pesam no mínimo 8 kg até que as folhas de ouro atinjam a espessura final desejada. “Bater o ouro à mão faz com que os átomos da matéria permaneçam inalterados e isto garante uma qualidade superior, o que só nós fazemos em toda a Europa e talvez no mundo inteiro”. Marino explica que a produção das finíssimas folhas de ouro é exclusividade da sua antiga bodega em Veneza, já que todos os outros produtores realizam o trabalho de forma industrial.

Sara faz coro com o pai: “Sinto como se não existisse ninguém como nós, é como se fossemos um exemplar único”. Ela, que completou os estudos universitários e trabalhou na administração de algumas pequenas empresas do Vêneto, resolveu investir na atividade da família. Com a irmã Eleonora e a mãe Sabrina, é a responsável por equilibrar a força do pai com a delicadeza das mulheres que trabalham na Berta Battiloro.

A sincronia entre respiração e gestos é que rege o trabalho. As folhas de ouro são finíssimas e é necessário somente um sopro para que elas vibrem. Um sopro mais ou menos forte basta para que elas se se assentem ou se desfaçam. As mulheres do “battiloro” trabalham com pinças e precisão. Cada bloquinho é feito de 25 folhas de ouro alternadas com um papel antiaderente especial. Para encaixar uma folha de outro entre o papel, elas respiram e sopram delicadamente. O papel, que tem um tratamento especial, deve estar livre de resíduos e fragmentos. O processo é feito com patas de lebres que distribuem o talco e as cinzas para evitar que o papel grude nas folhas de ouro. As patas de lebre são fundamentais neste processo porque não perdem pelo.

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A preciosidade da matéria prima não permite perdas. No pavimento do laboratório, grades de madeira recolhem os fragmentos dispersos no ar e recompostos com a ajuda de um aspirador de pó. Estes reluzentes e preciosos pedaços de “papel” irão retornar ao processo desde o início para voltarem à mesa das artesãs.

Do pequeno laboratório secular de Marino Menegazzo, as finíssimas folhas de ouro seguem para bodegas de outros artesãos onde serão aplicadas em objetos decorativos como mosaicos, esculturas e vidros. É dali que saiu o ouro que adorna o suntuoso anjo do campanário da Praça São Marcos, em Veneza. As folhas de ouro são utilizadas ainda na indústria cosmética e na decoração de pratos de chefs de restaurantes estrelados.

A casa onde funciona o Berta Battiloro é impregnada de história. Ali viveu seus últimos anos Ticiano Vecellio, um dos maiores representantes da escola veneziana no Renascimento. A família Berta manteve a estrutura original da casa, assim como vem mantendo a tradição do ofício. Mas enquanto Sara e Eleonora entre sopros e pinças equilibram a delicadeza, Marino enfrenta dificuldades em ampliar a força. “É muito difícil encontrar quem queira aprender o  ofício, não existe uma escola que forme um “battiloro”, não é um trabalho, é uma arte. É necessário senti-la para entrar na ótica do artesão”, defende Marino.

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Além de dificuldade em encontrar um sucessor, o último “battiloro” de Veneza sente a concorrência. As fábricas de folhas de ouro industriais na Europa e no exterior recebem numerosas encomendas pois produzindo em grande escala conseguem ter preços competitivos. A baixa qualidade porém percebe-se na quantidade de material que vem descartado, o que não acontece utilizando-se as folhas produzidas de modo artesanal.

Tecnologia e o sopro de vida

Assim como o sopro pode arruinar o trabalho duro do “battiloro”, a morte do ofício pode chegar com a ação devastadora da tecnologia, que acelera processos e otimiza a produção. No caso do último “battiloro” de Veneza, o sopro de vida contou com a ajuda de uma start up criada pelos arquitetos Eleonora Odorizzi e Andrea Miserocchi. O portal Italian Stories é o primeiro marketplace de turismo cultural do artesanato italiano e funciona como uma comunidade virtual que coloca em contato turistas e artesãos de todo o país.

A equipe do Italian Stories foi em busca de bodegas, artesãos e antigos ofícios em toda Itália e encontraram um novo modo de contar histórias. De um lado, a iniciativa permite ao artesão de mostrar o seu trabalho, com a riqueza dos detalhes e com a paixão passada de geração a geração. Da outra parte, consegue emocionar o turista fora do padrão, aquele que prioriza a experiência.

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A tecnologia que supera a produção artesanal não é a mesma que conecta indivíduos interessados em descobrir o território em bodegas desconhecidas do grande público. “Existem tantas possibilidades nas quais a tecnologia pode ajudar a produção artesanal, mas para nós esta tinha um sentido diferente, não ligado ao objeto, mas sim ao compartilhamento de habilidades e competências”, defende Eleonora.

O Italian Stories encontra fermento no constante interesse por uma nova forma de fazer turismo, o slow travel, prática que privilegia a experiência emocional e uma viagem sustentável. A valorização do artesão local se dá com o interesse do turista em conhecer a história do lugar pelo seu ofício e os bens produzidos, duas coisas que caminham juntas. Na antiga bodega de Marino, Eleonora e Sara sabem que um pouco da história de Veneza, de seus monumentos, igrejas e palácios saiu do laboratório onde inclinadas sobre uma mesa, elas sopram as folhas do último “battiloro”.

Contatos:

Berta Battiloro: http://www.berta-battiloro.com/

Italian Stories: http://www.italianstories.it/
Fotos: Evelyn Leveghi

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Esta matéria foi publicada originalmente na segunda edição da Cause Magazine, publicação independente produzida por criativos de diversas áreas com a qual colaboro. Para saber mais ou comprar clique aqui.

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