Torcello, porque visitar a ilha menos famosa de Veneza

A maioria dos sites e blogs de viagem quando cita Torcello, sugere uma visita rápida. “Uma hora dá e sobra”! Acho muito injusto, e até respeito quem é da turma do “eu fiz Murano,Burano e Torcello”, mas acredito que dedicar um tempinho a mais à ilha menos famose de Veneza vale a experiência.  Aqui eu explico porque.

Um pouco da história

Pouca gente sabe que antes de Veneza ser o que ela é hoje, Torcello já existia e era uma cidade muito bem estruturada. A ilha foi fundada em 452 pela população que fugia da cidade de Altino, que naquele período histórico sofria invasões violentas dos hunos e depois dos longobardos. Alguns históricos defendem que a cidade já existia antes desta data, formada pelos núcleos romanos do continente e das pequenas comunidades da lagoa.

Fato é que Torcello se desenvoleu rapidamente e chegou a ser um importante centro comercial, com a grande produção de sal e de lã.  A cidade chegou a contar com 20.000 habitantes, virou sede episcopal e detinha o poder sobre outras ilhas à época menos importantes, como Mazzorbo e Burano.

O primeiro documento histórico que comprova a importância da ilha é a epígrafe de 639 que atesta a fundação da catedral de Torcello, ainda hoje visível na igreja. Durante a construção das casas e edifícios da ilha, foram utilizados os materiais provenientes da antiga cidade romana de Altino. Assim, antigas colunas, pilastras, frisos, tijolos, pedras são a base da estrutura de Torcello.

No século XV, porém, já ameaçada pela crise no comércio, Torcello sofre um duro golpe. As mudanças ambientais, com o desvio do curso do rio Sile provoca o empantanamento da cidade e o problema traz consigo um surto de malária. Os sobreviventes tiveram de fugir para as ilhas próximas e para Veneza para se defenderem da doença.

O que ver em Torcello

Não dá pra negar que Torcello seja mesmo minúscula. Quando você desce do vaporetto, cai em um canal, o único da cidade que leva à catedral. O que resta de Torcello hoje é um espaço rural, à esquerda, uma trilha cercada por vinhedos e hortas e à direita a famosa Ponte do Diabo, Ponte del Diavolo.

A lenda conta que na época da invasão austríaca uma jovem veneziana se apaixonou por um soldado austríaco, mas sua família era contra o relacionamento e fez de tudo para impedir a união, levando-a embora de Veneza. Mais tarde, a jovem veio a saber do assassinato de seu amado, entrou em greve de fome e estava quase morrendo quando por influência de um amigo de família, procurou uma bruxa.

Foi estipulado um pacto: a jovem e a bruxa ofereceriam ao diabo a alma de 7 crianças em troca do soldado austríaco e o ponto de encontro para a troca era exatamente na ponte de Torcello. A jovem teve o seu amor de volta, mas a bruxa foi morta e nunca apareceu para acertar as contas com o diabo. Por isso dizem que todo dia 24 de dezembro, o diabo se apresenta na ponte para procurar pela bruxa e ter sua parte do combinado. A ponte é uma das duas pontes de toda a Veneza que restaram como eram antigamente, sem parapeito ou proteção.

Mais adiante à esquerda, está a Locanda Cipriani, criada por Giuseppe Cipriani em 1934 com poucos quartos e um restaurante. O espaço ganhou fama depois de hospedar no outono de 1948, o escritor Ernest Hemingway, que ali passou o mês de novembro se dividindo entre a caça de patos e a escritura de Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores. Depois disso, a Locanda começou a receber personalidades,famílias reais europeias, artistas, em busca do sossego proporcionado por Torcello e impossível de conseguir em Veneza. A Locanda Cipriani é um ótimo local para almoçar, a comida é ótima e respira-se uma atmosfera relaxada, longe da agitação de Veneza.

Atravessando mais uma ponte chega-se à praça da cidade, formada pela catedral, batistério, a igreja de Santa Fosca, os palácios do arquivo e do conselho e o famoso trono de Átila.

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A Catedral de Nossa Senhora da Assunção – Santa Maria Assunta, restaurada em 1994, é considerada o edifício mais antigo da lagoa. Uma inscrição no presbitério comprova que ela foi consagrada no ano de 639 e algumas de suas decorações e elementos utilizados são ainda do período da fundação. A igreja é dividida em 3 naves por 18 colunas de mármore grego e no altar, o sarcófago romano que contém o corpo de Santo Eliodoro.

Mas o detalhe que mais chama atenção são dois importantes mosaicos. Na abside da igreja, a Madonna con il Bambino, uma explosão de tons dourados que motra a riqueza do que um tempo foi Torcello. Na contra-fachada da igreja, um extenso trabalho em mosaico que cobre toda a parede retrata o Juízo Universal, uma das maiores representações em uma igreja da laguna.

Em frente à igreja estão as ruínas do antigo batistério e, ao lado, a igreja de Santa Fosca. Construída entre o século XI e XII, o edifício foi edificado para guardar as relíquias das santas Fosca e Maura. No interior não existem decorações, mas o a igreja tem grande influência bizantina.

Na praça de Torcello é possível admirar alguns repertos arqueológicos, mas muitos deles estão guardados no Museu Arqueológico de Torcello. As peças vão desde a pré-história ao período paleocristão, como cerâmicas, bronze, urnas, amuletos, anéis, instrumentos cirúrgicos etc. A exposição continua no palácio do arquivo, uma das poucas construções de Torcello.

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Ainda na praça, o trono de Átila é uma das lendas mais célebres da ilha. Dizem que o trono de pedra pertenceu ao rei dos hunos, que teria chegado até Torcello junto com seus homens. Mas o fato não tem fundamento histórico, já que os hunos nunca chegaram até Torcello. O trono era provavelmente onde se sentavam os governadores da ilha, durante as reuniões com seus conselheiros.

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Como chegar

A maioria das pessoas justamente aproveitam a visita à ilha de Burano para esticar até Torcello. Para chegar até Burano é necessário pegar o vaporetto número 12, que sai do ponto Fondamente Nove – próximo ao hospital de Veneza. De Burano basta pegar a linha 9, que chega até Torcello.

 

 

 

 

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