Ravena, a obra-prima feita de mosaicos e muita história

Por 74 anos – de 402 a 476 – Ravena foi um dos lugares mais importantes do mundo antigo. Neste período a cidade conheceu todo esplendor de ser capital do Império Romano no Ocidente. Para quem não sabe, antes disso, a capital do Império Romano foi por quase 200 anos, Milão, como bem explicado neste post do blog Milão nas Mãos. Mas Ravena ficou marcada na história por ter sido a última capital e por ter testemunhado a queda do imperador, deposto por Odoacre, rei dos hérulos.
A queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. institui o fim da Idade Antiga e o início da Idade Média. Ravena ficou por um curto período nas mãos dos bárbaros até que Justiniano, imperador do Oriente, afim de reconquistar os territórios ocidentais, mandou invadir a cidade. Em 539, Ravena tornou-se bizantina e um grande conjuntos de obras começou a ser construído na cidade, enriquecendo-a e tornando-a uma importante testemunha do período.
O imperador Justiniano representado nos mosaicos de San Vitale - foto Internet
O imperador Justiniano representado nos mosaicos de San Vitale – foto Internet
Os mosaicos são a expressão máxima da arte bizantina e, em Ravena, eles estão por todas as partes. Não à toa os monumentos paleocristãos da cidade ganharam, em 1996, o título de Patrimônio Mundial da UNESCO. No total são oito, seis destes facilmente visitáveis com um passeio a pé pela cidade.
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Ravena é uma cidade pequena e uma parte do centro histórico é exclusiva dos pedestres. Da estação de trens seguimos até o escritório de informações turísticas da cidade, na Piazza San Francesco para pegarmos informações e o mapa que nos levaram até as atrações principais.

Túmulo de Dante Alighieri

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Muita gente pensa que Dante está enterrado juntos a outros ilustres florentinos na Basílica de Santa Croce, em Florença, mas o poeta descansa em Ravena, cidade onde viveu em exílio. Dante contraiu malária e morreu em 1321. Seu corpo foi enterrado próximo à igreja de São Francesco. No século XV, os florentinos reivindicaram os restos mortais, mas os frades franciscanos os esconderam e eles permaneceram na cidade de Ravena. O templo neoclássico que se vê hoje foi construído em 1781.

Basílica de São Francisco

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Bem próximo ao túmulo de Dante esta igreja foi construída a partir do século IX, no mesmo lugar onde existia uma igreja bem mais antiga. Ao longo dos séculos foi restaurada, decorada e enriquecida com altares barrocos. Mas o que chama mais atenção neste templo, é a cripta, que conserva mosaicos antigos e, invadida pela água que forma uma piscina onde nadam em tranquilidade alguns peixes. Muito sugestivo.

Batistério Neoniano – * Patrimônio UNESCO

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O monumento mais antigo da cidade foi construído no final do século IV e início do século V. Do lado de fora, uma simples estrutura octogonal em tijolos, dentro todo o esplendor dos famosos mosaicos de Ravena. No centro da cúpula do edifício está representado o batismo de Cristo no rio Jordão. São João Batista, com sua túnica de pelo de camelo, Jesus, a pomba branca do Espírito Santo e uma antiga divindade pluvial que assiste ao ato. As cores vivas do mosaico e a técnica impressionam pela perfeição de como retratam a cena.

Museu e Capela Arcivescovile – * Patrimônio UNESCO

Foto Internet - no museu e capela é proibido fotografar
Foto Internet – no museu e capela é proibido fotografar
Ao lado do Batistério Neoniano fica esta museu, que conta com uma Pinacoteca pequena, mas muito interessante, além de obras de valor inestimável como o trono episcopal coberto com placas de marfim, do século V e a cruz argenteira do século VI. Dentro do museu está a Capela Arcivescovile, ou Capela de Santo Andrea, construída como oratório particular pelo bispo Pietro II (494-519 d.C). Foi o único edifício dedicado ao culto ortodoxo no período. Na entrada se destaca o grande Cristo guerreiro realizado com os mosaicos. Na mão direita carrega uma cruz e na esquerda um livro aberto com a escrita “Eu sou a estrada, a verdade e a vida”. Pisa em um leão e uma serpente, símbolos do mal.

Basílica de San Vitale – * Patrimônio UNESCO

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Muito do meu sonho de conhecer Ravena tinha por razão a Basílica de San Vitale. Via todo aquele esplendor nos programas de televisão e pra mim era inacreditável pensar que há tantos séculos alguém pudesse construir uma série de mosaicos tão grandiosa. San Vitale foi construída a partir do ano 523 d.C, por ordem do bispo Ecclesio, que vivendo por um período em Constantinopla (atual Istambul), ficou completamente fascinado por suas igrejas. Uma das características de San Vitale é o jogo de luzes que penetra dentro dos diversos ângulos das janelas é é fracionado pelos elementos arquitetônicos, o que faz resplandecer os mosaicos e painéis de mármore. O presbitério, parte mais decorada da igreja, é um triunfo de mosaicos que contam episódios bíblicos. Chama muita atenção também a figuração, à direita, da Imperatriz Teodora, com seu manto dourado e púrpura, acompanhada de suas damas da corte. À esquerda, o Imperador Justiniano, acompanhado de um cortejo de patrícios e soldados. A maestria dos mosaicistas vê-se não só nas formas, mas também nas cores utilizadas para adornar as roupas dos personagens.

Mausoléu de Galla Placidia – * Patrimônio UNESCO

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Quando o Imperador Honório morre, em 423 d.C, sua irmã Gala Placídia torna-se rainha do Império do Ocidente no lugar no filho Valentiniano III, ainda uma criança.  Neste período, Ravena viveu um intenso período artístico e arquitetônico e foi construído seu mausoléu. De fora, uma simples estrutura de tijolos. Dentro, mais um triunfo de mosaicos, com estrelas douradas, a crus de Cristo, símbolo da vida eterna, personagens como os apóstolos, os livros do evangelho, pastores e animais.

Basílica de Sant’Apollinare Nuovo – * Patrimônio UNESCO

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Dedicada inicialmente ao Cristo Redentor e depois ao bispo Apollinare, foi construída no final do século V d.C. É o monumento mais amplo e de onde se admira com mais clareza os mosaicos. O mosaicos se dividem em três níveis. Os mais próximos do teto, representam episódios da vida de Jesus Cristo e alguns de seus milagres. No nível mais baixo, estão representados os profetas e naquele inferior, um de frente para o outro, estão Cristo e Nossa Senhora com o Menino Jesus, ambos sentados em um trono e cercados pelos quatro arcanjos. Na parede direita, é representada a procissão de 26 santos mártires, guiados por São Martim vão ao encontro de Jesus Cristo. Na esquerda, corresponde à procissão de 22 santas virgens precedidas dos Reis Magos que levam os dons ao Menino Jesus.

Batistério dos Arianos – * Patrimônio UNESCO

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Escondido em uma pracinha da cidade – mas facilmente pode-se encontrar com mapa e placas – está este batistério construído no século V, quando Teodorico havia consolidado seu poder e o arianismo tornado-se a religião oficial da corte. Quem seguia a doutrina de Ário negava a natureza divina de Cristo e acreditava que Pai e Filho não eram a mesma pessoa. Do batistério original restou somente a decoração em mosaicos da cúpula, que representa o batismo de Cristo no Rio Jordão e os apóstolos. Fecham o ciclo Pedro e Paulo.

Ingressos e os outros Patrimônios UNESCO

Para visitar algumas das atrações de Ravena existe um ingresso especial que custa 9,50 euros e pode ser adquirido na entrada de qualquer uma delas, que são cinco: Basílica de Sant’Apollinare Nuovo, Museu e Capela Arcivescovile, Batistério Neoniano, Basílica de San Vitale e Mausoléu de Gala Placídia. Para o Batistério dos Arianos, o ingresso custa 1 euro e é feito na maquininha que fica em frente ao monumento.
Os sítios considerados Patrimônio da Humanidade UNESCO em Ravena são oito. Dois deles ficam de fora do percurso, mas muito próximos do centro da cidade – pode-se pegar ônibus ou táxi – e são: Mausoléu de Teodorico e a Basílica de Sant’Apollinare in Classe. Pretendo visitar estes dois monumentos que ficaram faltando a próxima vez que estiver em Ravena.

Onde fica Ravena

Ravena fica na região da Emilia Romagna, a 150 quilômetros de Veneza e a 80 quilômetros de Bolonha, que é a base mais fácil para chegar até a cidade. Existem trens diretos que saem de Bolonha geralmente a cada 30 minutos e a média de duração da viagem é de 1h20. Saindo de Veneza, a viagem fica mais longa, de 3 a 4 horas com trocas de trem em Bolonha.

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