Os cafés históricos de Veneza

Os cafés históricos de Veneza são símbolos da sofisticação e da riqueza que a cidade acumulou ainda nos tempos em que era uma poderosa república. A Praça São Marcos, coração do poder político e religioso da Sereníssima foi testemunha de grandes acontecimentos, mas também palco e refúgio de muitas personalidades que passaram por seus cafés históricos.

Mas para falar destes estabelecimentos, é preciso voltar um pouquinho no tempo para lembrar que Veneza foi porta de entrada do café na Europa. O primeiro carregamento chegou na cidade em 1624, junto das especiarias, perfumes e sedas vindos de Constantinopla.

A relação de Veneza com o café

A bebida, muito consumida pelos árabes, não era vista com bons olhos pela igreja. Mas seu apelo excitante e até afrodisíaco acabou tendo de ser tolerado. A história conta que o Papa Clemente VIII era um grande apreciador do café e se rendeu ao sabor da nova moda. Não restou outra escolha a não ser liberar seu consumo.

Os grãos que inicialmente eram vendidos nas drogarias da cidade, logo caíram nas graças do povo e, em 1683, surgiu o primeiro café da cidade. Um século depois já eram mais de 200. Os mais famosos se concentraram na Praça São Marcos e, ainda hoje, alguns deles estão em plena atividade. Confira abaixo alguns deles.

Caffè Florian

O café mais antigo da Itália (que desde sua inauguração nunca fechou os batentes) foi inaugurado em 1720 por vontade de Floriano Francesconi e chamado de Alla Venezia Trionfante. Em pouco tempo, o local ficou conhecido como Florian, pois os abitués costumavam a dizer em dialeto veneziano: andemo da Florian.

O local, finamente decorado com espelhos, afrescos, esculturas misturava o estilo neorrococó com elementos orientais e neorrenascentistas. O Florian atraía a clientela mais exigente, a alta sociedade, intelectuais, ricos comerciantes e, claro, os viajantes do Grand Tour. Lord Byron e Henry James são apenas alguns deles.

Na sedutora Veneza dos anos 1700 o Florian foi o primeiro local aberto também para as mulheres, muitas delas cortejadas por um certo Casanova. Foi aqui também que Francesco Guardi tentava vender seus primeiros quadros e Canaletto observava a paisagem que mais tarde iria retratar.

Os registros pictóricos e fotográficos testemunham a importância do café mais antigo da Itália e a preservação de seus salões refinados revivem todos os dias a atmosfera festiva e nobre de Veneza, do áureo período da República e até mesmo depois de sua queda. Foram muitas as personalidades que sentaram nas elegantes mesas e poltronas do Florian. Turistas, anônimos e locais se emocionaram ao som da orquestra que até hoje é marca registrada do estabelecimento.

Caffè Lavena

Do lado oposto ao Florian, debaixo do edifício da Procuradoria Velha, o Caffè Lavena chama atenção pela orquestra afinada e por um enorme lustre realizado em vidro de Murano decorado com as cabeças de mouro, elemento típico da arte veneziana. O Caffè Lavena começa a funcionar poucos anos depois do Florian, em 1750, no período em que Veneza passa ao controle do Império Austro-Húngaro. O nome original era Regina d’Ungheria, depois passou a se chamar Orso Coronato, e, finalmente em 1860, Caffé Lavena.

Distribuído em dois andares, o local sempre foi muito elegante e era frequentado principalmente pela clientela internacional, fato que lhe deu o título de café dos forasteiros. Um dos frequentadores famosos do Lavena foi o compositor alemão Richard Wagner, que passava longas temporadas em Veneza com a família. Ele ia ao Caffè Lavena todas as tardes e foi no local que ele compôs parte da obra Parsifal. É possível ver uma placa em uma das paredes do Lavena homenageando seu mais ilustre frequentador.

Caffè Quadri

Giorgio Quadri era um mercador veneziano e vinha da ilha de Corfù, que por muitos anos pertenceu à República de Veneza. Com uma boa soma de dinheiro para investir, por influência da esposa, Naxina, resolveu comprar um estabelecimento na Praça São Marcos e o nomeou Caffè Quadri, em 1775.

Além do café, no local era servido chocolate quente, os famosos biscoitos venezianos baicoli, sorvete, limonada, vinhos e licores. Além do café, o espaço ganhou um refinado restaurante quando foi comprado pelos irmãos Vaerini, em 1830. As salas foram decoradas com espelhos, móveis em estilo veneziano e as paredes pintadas com painéis que retratavam a vida veneziana e as paisagens dos anos 1700.

O Caffè Quadri é o único café histórico da Praça São Marcos a ter um restaurante. Hoje, ele é administrado pelos irmãos Alajmo, Massimiliano e Raffaele, proprietários de alguns dos restaurantes de maior prestígio da Itália. Em 2018, o espaço passou por um restauro realizado por Philippe Starck e artesãos venezianos.

Os cafés históricos hoje

A experiência de se sentar em um dos cafés históricos de Veneza é sublime. No período do inverno, se aquecer em uma das salas do Florian ou do Quadri, ou nas mesinhas simpáticas do Lavena, é uma boa pedida. Viver a atmosfera dos cafés históricos não é uma experiência econômica. Como em vários locais aqui na Itália, existe uma diferença de preço para consumo no balcão ou nas mesas.

No Florian, por exemplo, o chocolate quente servido na mesa custa 11 euros e no balcão, 5,50. Você pode ver os preços em uma tabela que fica na entrada do café, ou previamente neste link. Existe também uma espécie de couvert artístico de 6 euros por pessoa a se pagar pela orquestra. Se você decidir por se sentar, aproveite então este momento especial e inesquecível.

 

 

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