O tabarro veneziano, tradição e história

Apesar de não ser uma cidade tradicionalmente ligada à moda, sabemos que Veneza, no passado, por sua grande influência comercial, lançou algumas tendências. Afinal, era aqui que chegavam os tecidos como seda, damasco, veludo, que vestiam homens e mulheres. Uma peça, em especial, ainda é identificada como tradicionalmente veneziana, o tabarro. Vamos então conhecer sua tradição e história.

Símbolo ao longo dos séculos

Uma capa preta, feita somente com dois pedaços de tecido e uma única costura nas costas, geralmente de lã em cor escura. Este é o tabarro, para nós, uma espécie de mantela ou poncho, para usar principalmente no período do inverno. Sua origem é muito antiga. Algumas fontes revelam que já eram usados pelos romanos, outras sinalizam sua popularidade a partir do período medieval.

Fato é que o tabarro está muito ligado à população veneta, ou seja, a área de Veneza e seus arredores. Foi uma peça muito utilizada nos meses de inverno, primeiramente pelos camponeses que trabalhavam no frio. Mas caiu nas graças dos cidadãos venezianos quando começaram a utilizar tecidos mais nobres. Juízes, políticos, médicos, religiosos, mercadores, homens ou mulheres se protegiam do frio com esta espécie de capa, que permitia que eles se sentissem confortáveis e muito elegantes.

A arte de construir um tabarro

Para se fazer um tabarro são necessários cerca de 6 metros de tecido. É utilizada lã de ótima qualidade ou cachemire, pois o pedaço do tecido é cortado e não pode desfiar, já que o tabarro tem um corte vivo, ou seja, sem qualquer tipo de costura ou bainha na borda. A única costura é realizada nas costas, e une as duas partes de tecido para que o tabarro forme uma grande roda.

Seguindo a tradição, o modelo do tabarro quase não tem variações. A peça pode ser longa ou mais curto, até o joelho. Este era o modelo que usavam as pessoas que andavam a cavalo ou de bicicleta. O tabarro pode ter gola ou não, e é fechado na altura do pescoço por ganchos. As mãos ficam livres embaixo do tecido e um tabarro original nunca tem o buraco para passar os braços. Um acessório muito utilizado também é o alamaro, uma espécie de gancho estilizado para fechar o tabarro. Não é necessário dizer que é uma peça totalmente feita à mão, por artesãos experientes e qualificados.

Mistério e personagens

No século XVIII, o tabarro assume um novo papel na sociedade veneziana, vestindo homens e mulheres durante o carnaval. Junto das máscaras, ele permitia que os foliões aproveitassem a festa em pleno anonimato. É neste período também que o tabarro ganha novas cores e tecidos. Veludo vermelho para os patrícios e cores escuras para os comerciantes.

Giacomo Casanova, sem dúvidas, foi um dos maiores embaixadores do tabarro. Em suas viagens, ele levava a peça e, por onde passava, ajudava a aumentar sua atmosfera de mistério e elegância. Carlo Goldoni, escritor de peças teatrais também era um adepto, assim como Mozart.

O compositor italiano Giacomo Puccini dedicou ao tabarro uma de suas famosas óperas, que teve sua estreia em 1918, no Metropolitan, em Nova Iorque. Uma das frases da ópera: “Todos nós usamos um tabarro, que esconde algumas vezes uma alegria e outras uma dor”.

É muito comum ver o tabarro representado em quadros de várias épocas, mas principalmente nas obras de artistas que retratavam o quotidiano de Veneza como Pietro Longhi e Canaletto.

Tabarro ontem e hoje

No início dos anos 1900 o tabarro era visto como uma peça muito elegante e era usado por uma grande parcela da população, de ricos a camponeses. No período da guerra era usado pelas tropas em uma versão mais curta e prática. No período fascista foi quase banido por ser considerado um modelo de roupa usado por pessoas anarquistas. Caiu em desuso depois da Segunda Guerra com a chegada de peças mais práticas como o capote, casaco que usamos até hoje.

Existe porém um movimento para a volta da popularização do tabarro. Em Veneza é muito comum ver a peça sendo usada nos meses de inverno, seja pelos mais velhos que jovens, que além de manter a tradição buscam por soluções elegantes. As grandes casas de moda como Valentino e Prada, por exemplo também têm proposto modelos parecidos com o tabarro em suas coleções.

Onde encontrar

São poucas as revendas de tabarro hoje em dia, mas em Veneza posso citar o Tabarro San Marco, de Monica Daniele, onde fui muito bem recebida e comprei o meu tabarro. É possível visitar o ateliê, que fica no centro histórico ou comprar online. Eles também produzem chapéus lindíssimos. Outro produtor é o Tabarrificio Veneto, com sede nos arredores de Veneza.

 

 

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