No mundo da grappa

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Ela pode ser considerada a prima da nossa cachaça.  Nasce pobre e serve de combustível para espantar o cansaço e dar força ao trabalhador do campo, assim como no Brasil dava alento aos escravos. Qualquer semelhança não é absolutamente mera coincidência. A grappa é uma bebida tradicionalmente italiana, mas realizada com o processo de destilação, o mesmo utilizado na produção da cachaça. A matéria prima é a casca da uva,  a vinaccia, que é na verdade o bagaço da uva depois do processo de vinificação. A grappa adquiriu status nos anos 70, depois de muita teimosia de uma senhora que mais parece um furacão chamada Giannola Nonino.  É muito difícil contar essa história em poucas linhas, já que a Grappa Nonino contribuiu e muito para a história da própria grappa na Itália e no mundo.

Com um amor imenso pela sua terra, o Friuli (norte da Itália) e com um marido proveniente de uma família de produtores de grappa, Giannola resolveu investir tempo, dinheiro, mas sobretudo paixão no empreendimento e, nos anos 70, comprou um maquinário de primeira linha para produzir grappa de modo artesanal. Chamou as mulheres dos camponeses que vendiam por um preço irrisório o bagaço da uva e propôs dar um extra se elas trouxessem tudo separado por tipologia de vinhedo, para garantir maior qualidade do destilado. E assim criou a Grappa Nonino. A dificuldade então era vender a ideia, transformar a grappa de gata borralheira a Cinderela. Colocou a grappa em uma garrafa transparente, em forma de ampola de laboratório, um verdadeiro objeto de design (as garrafas de Grappa Nonino ganharam até uma exposição em Milão), fechou com uma tampa prateada e escreveu a mão as etiquetas numa fita vermelha. Viajou por várias cidades apresentando o produto até que um dia recebeu a encomenda de 48 garrafas de grappa, da parte de Giovanni Agnelli, presidente da Fiat. A partir daí foi um passo para que a grappa chegasse na casa das classes sociais mais abastadas e fazer o giro do mundo.

A Grappa Nonino hoje é comandada por Giannola, o marido Benito e as três filhas Elisabetta, Cristina e Antonella. Giannola e Antonella nos receberam na sede da empresa, em Percoto, Friuli, onde podemos conhecer os famosos alambiques de cobre e degustar uma série de grappas deliciosas, com um aperitivo e um almoço maravilhoso.

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Os alambiques da Nonino. Cada grupo de alambique leva o nome de um dos membros da família
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Nessas tinas enormes a vinaccia fermenta antes de ir pra destilaria

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Esse pessoal da Nonino é tão “pra frentex” que nos anos 70 criaram uma prêmio. No início premiaram os agricultores que se esforçaram para cultivar os vinhedos em vias de extinção. Depois lançaram um prêmio literário que tomou rumo internacional e resolveu contemplar ninguém menos que Jorge Amado. A história, contada por Giannola é sensacional. Escolha feita, Giannola ligou para a editora responsável pelas obras de Amado aqui na Itália que categoricamente disse que era impossível que ele viesse retirar o prêmio, pois ele detestava andar de avião. Teimosa que só, Giannola pegou o telefone, e sem falar uma palavra de português ligou lá pra Bahia. Para sua surpresa atendeu a Zelia Gattai, que não só falava italiano, mas dialeto vêneto, pois sua família era de uma cidadezinha no Vêneto, perto da cidade da mãe de Giannola. Jorge Amado não só veio a Percoto receber o prêmio como criou uma grande amizade com Giannola e as meninas da família Nonino.

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As embalagens são lindas
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As famosas garrafas em forma de ampola
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O lampadário é feito com as garrafas da grappa tradicional. Um luxo!

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Especialmente para nós

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Capricho. Queijo e mel para acompanhar a grappa feita com mel de castanha.
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Pirulitos de queijo derretido crocante. Delícia!

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O capricho na sala degustação

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Sorvete sabor grappa

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Saborosíssima feita com a pera Williams
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Antonella fala sobre a história da Nonino. A foto de família feita por Oliviero Toscani
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Até a Lindt se rendeu aos encantos da Grappa Nonino
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O furacão Giannola
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Ela deu até autógrafo
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A amiga de Jorge Amado e eu
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