As pérolas e contas venezianas, arte secular que sobrevive na laguna

Basta um olhar nas vitrines dos antiquários venezianos para reconhecer diversos objetos feitos com a protagonista absoluta de tempos remotos: as contas venezianas. Da mais modesta à mais abastada, todas as mulheres se enfeitavam com o adereço. Veneza tem uma relação especialmente forte com a produção das contas, principalmente pela proximidade com a ilha de Murano, conhecida produtora de vidros preciosos.

A produção de contas tem origem nos anos 1300 e durante os séculos foram utilizadas várias técnicas que originaram formatos, nuances e cores diversas. As contas venezianas eram matéria de troca com todos os continentes, principalmente África, Américas e Índia . Durante as obras para a revitalização da zona portuária no Rio de Janeiro, por exemplo, nas escavações foram descobertos vários objetos antigos vindos da África, entre eles, um porta joias repleto de contas venezianas.

Quem me conta todas estas histórias é Marisa Convento, artesã apaixonada pelo ofício de “impiraressa”, aquela que “enfia” contas raras e preciosas em um fio para criar joias, flores, corais e bordados. Marisa é uma das figuras mais importantes no meio dos artistas e artesãos de Veneza. Defensora férrea da sua cidade, da cultura e da história, leva como uma verdadeira missão divulgar seu ofício e a importância de manter vida a tradição.

O ateliê de Marisa é sempre aberto a quem deseja admirar suas criações e ouvir suas histórias. Em uma portinha muito próxima a São Marcos, Marisa trabalha com um olho nas contas e outro no computador. Afinal uma verdadeira embaixatriz do artesanato veneziano também deve usar as redes sociais para falar sobre sua cidade e ofício.

Profissão: impiraressa

A profissão de impiraressa é muito antiga. Se de um lado o trabalho de produção de vidro e contas de Murano exigia a força masculina, o processo de transformá-las em objetos belos e delicados, dependia da paciência e sensibilidade das mulheres. Naquele tempo, elas trabalhavam principalmente em grupos, na frente de suas casas, de onde podiam tomar conta das crianças. Era um trabalho árduo, cansativo e mal remunerado, mas era um modo de ajudar nas despesas do lar.

As impiraressas retratadas por John Singer Sargent,1882
Marisa diz que em 1578, o Senado veneziano reconheceu a profissão de impiraressa, e as contas, colares e objetos criados por estas mulheres tinham como destino certo terras longínquas. Por isso, tantas contas, pérolas e vidros foram encontrados no mundo inteiro. O ofício, que por séculos sustentou a economia doméstica de várias famílias venezianas foi perdendo força ao longos dos séculos e nos anos 60, já não se encontravam mais impiraressas na cidade. Hoje, Marisa é uma das poucas que ainda realizam este tipo de trabalho em Veneza.

A vocação de Veneza para o artesanato é algo muito marcado na história e na vida da cidade. Existem ainda muitas bodegas onde artesãos trabalham manualmente, mas com a dificuldade de levar adiante técnicas e saberes muito antigos. Um deles, o produtor de folhas de ouro, o último de Veneza, sobre o qual eu falei aqui. Conhecer o laboratório de Marisa contribui para entender mais sobre esta veia artística de Veneza e valorizar realmente um objeto carregado de beleza e história.

Quem quiser conhecer a Marisa e levar pra casa um de seus colares maravilhosos é sempre bem vindo ao seu laboratório que fica na Calle della Mandola, muito próximo a São Marcos. E quem deseja fazer uma verdadeira experiência no laboratório da impiraressa, indico o Italian Stories, uma plataforma de turismo experiencial que conecta turistas aos artesãos de toda Itália.

Obrigada à equipe do Italian Stories e Evelyn Leveghi, a autora das fotos deste post

 
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