Aquileia, a antiga cidade romana e seus tesouros

Um verdadeiro deleite para historiadores, arqueólogos, estudiosos ou apenas curiosos sobre o Império Romano. Aquileia, cidade pouco conhecida pelo turista brasileiro, é daqueles tesouros que surpreende pela quantidade de referências e vestígios da idade romana. Localizada na província de Udine, região Friuli Venezia Giulia, Aquileia foi declarada em 1998, patrimônio mundial pela UNESCO.

Colonizada no ano 181 a.C, Aquileia foi, em ordem de importância, a quarta cidade italiana e a nona de todo o Império Romano. Sua localização era estratégica para a expansão territorial romana até o Danúbio, e para o controle militar e administrativo de uma vasta área. Mas o grande triunfo de Aquileia era o comércio. A cidade era ponto de chegada na Itália da rota do Âmbar, uma antiga rota de comércio que ligava o Mar do Norte e o Mar Báltico a outros pontos da Europa.
Aquileia transformou-se em um importante centro comercial do Império Romano graças ao rio Natisone-Torre, que a atravessava. A cidade era um grande empório onde chegavam mercadorias de todos os tipos que partiam para os 4 cantos do império. Além disso, era conhecida pela produção de vidros, gemas e pedras preciosas, cerâmica e a transformação do âmbar em verdadeiras obras de arte.
Em seu porto chegavam navios que transportavam material de construção como pedra e mármore, produtos alimentares, como especiarias, azeite de oliva, vinho e farinha, e pedras preciosas. Do norte chegavam madeira e metal.
Se hoje Aquileia conta com cerca de 3.500 habitantes, nos tempos de glória, sua população contava 100.000 pessoas (algumas fontes dão conta de 200.000). Seus moradores eram de origens diversas. Entre romanos e gregos, existiam ainda sírios, egípcios, judeus e celtas. Com a vocação da cidade para o comércio, sua população enriqueceu e era muito comum que decorassem suas casas com ricos mosaicos.
A importância de Aquileia ficou comprometida a partir de 361 d.C, quando o curso do rio que atravessava a cidade foi desviado. Mas foi com as invasões bárbaras do século V que a cidade entrou definitivamente em decadência. Em julho de 452, Átila, o rei dos Hunos, entrou com seu exército em Aquileia, dizimando sua população.

Visitando Aquileia

Aquileia fica na província de Udine, região Friuli Venezia Giulia. O modo mais fácil de chegar na cidade é de carro. De trem é necessário descer na estação de Cervignano -Aquileia – Grado, na linha Veneza-Trieste. Esta estação fica a 8 km da cidade, dali é preciso pegar um táxi ou meio público. Eu comecei minha visita a partir do InfoPoint, início do percurso das ruínas, onde aluguei um áudio guia por 5 euros com um mapinha das atrações.
As primeiras grandes ruínas, bem na entrada da cidade, é o que restou do Fórum Romano. O lugar era a praça principal onde a população se encontrava para tratar de negócios, política e assistir a cerimônias civis e religiosas. Algumas colunas e diversos restos foram recuperados e colocados onde antigamente funcionava o fórum. Um dos pontos interessantes são os dois blocos que com a cabeça da Medusa e Júpiter Amon, representando Oriente e Ocidente.
Seguindo o percurso, entra-se em uma longa estrada de ciprestes e pinheiros que margeavam o que em idade antiga era o porto fluvial de Aquileia. São visíveis os restos da estrutura, construída no século II a.C, como os anéis onde eram amarradas as cordas dos barcos e as rampas de acesso à cidade. Na estrada estão vários fragmentos de túmulos, arcas e colunas antigas.
Mas é no final desta estrada que chegamos ao ponto central e mais interessante de Aquileia, a basílica dedicada à virgem Maria e aos santos Ermacora e Fortunato. A origem da igreja é de 313 d.C, quando a comunidade cristã pôde construir o primeiro edifício de culto graças ao édito de Milão. O documento acabava oficialmente com qualquer perseguição religiosa, garantindo a neutralidade do Império Romano quanto ao credo religioso.
No interior da igreja é possível admirar o imenso mosaico do pavimento, realizado durante a construção original da basílica. São 760 metros quadrados e milhões de quadradinhos cortados, adaptados e pensados para darem origem a imagens extraordinárias que até hoje podem ser vistas na igreja. É o maior mosaico paleocristão do mundo ocidental. Um grande tapete de pedras que ficou por muito tempo escondido debaixo de um pavimento medieval. Foi somente nos anos 1900 que este imenso mosaico foi descoberto pelos estudiosos.
Os desenhos representam cenas do Antigo Testamento, com destaque para os animais e suas representações como a luta entre o galo e a tartaruga. Simbolicamente, o galo é a anunciação da luz e a tartaruga, a habitante das trevas. Dentro da igreja, é possível visitar a cripta dos afrescos, que conserva as relíquias dos mártires e a cripta das escavações. Esta última é uma zona arqueológica subterrânea que fica debaixo do gramado do campanário e conserva restos de quatro épocas diferentes.
A visita ao complexo prevê também a entrada ao antigo batistério e a subida ao campanário, de onde se tem uma vista geral da cidade. A entrada à igreja é gratuita e o ingresso às criptas, ao batistério e ao campanário são a pagamento. O ingresso para visitar todo o complexo custa 7 euros.
Para os apaixonados por arqueologia e história antiga, Aquileia conserva diversos objetos e restos em dois museus: Museu Arqueológico Nacional e Museu Paleocristão. A visita a Aquileia pra mim foi uma grande surpresa. Um território tão pequeno, mas com uma importância imensa na história.
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